Eletricidade no Brasil: Como chegamos até aqui?

Hoje quase todo mundo em casa aperta um botão e a luz acende. De noite as ruas ficam todas iluminadas.

Para uma pessoa que viveu há 150 anos isso ia parecer mágica. Então como foi a história que nós levou de lampiões a gás a lâmpadas?

Quando ainda éramos um império, Dom Pedro II chamou Thomas Edison para implantar as suas tecnologias no Brasil. Sim, o mesmo Thomas Edison que inventou a lâmpada.

Imediatamente começaram os primeiros experimentos no Rio de Janeiro, que na época era a capital do Brasil.

Em 1883 Diamantina instalou a primeira hidrelétrica do país, e, no mesmo ano, Campos inaugurou o primeiro serviço municipal de iluminação pública em toda América do Sul.

O ritmo de desenvolvimento foi muito rápido…em 1889 fizemos a primeira hidrelétrica de grande porte para os padrões da época. Várias outras foram surgindo para suprir a demanda por iluminação pública, da mineração e do início da indústria brasileira.

Logo depois da virada do século, o crescimento urbano no Rio e em São Paulo atraiu investidores Canadenses e Americanos.

Eles rapidamente colocaram bondes elétricos pra rodar em São Paulo e conseguiram direito para oferecer os principais serviços urbanos no Rio. A expansão do setor elétrico nesse período foi feita com dinheiro privado de origem internacional.

No começo do século XX, as coisas aceleraram mais ainda. A população brasileira quase duplicou, principalmente nas cidades.

A indústria nacional cresceu, enquanto as grandes potências do mundo estavam em guerra.

E como o Governo Federal praticamente não regulava o setor elétrico, era relativamente fácil montar uma usina. Você só tinha que negociar com a prefeitura ou, no máximo, o governo do estado.

Esse ambiente aberto atraiu ainda mais empresas de fora e fez com que o número de hidrelétricas crescesse sem parar. Em 1927 uma empresa americana chamada Amforp veio com tudo: comprou dezenas de concessionárias nacionais.

Junto com o grupo Light, que já tinha o monopólio na Região Sudeste, ambas controlavam 80% da distribuição de energia elétrica no país.

Na década de 30 o Governo Federal foi começando a controlar no setor. No início foi devagar, mas em 1934 ele desceu o chinelo.

Baixou um Decreto que centralizou nele as autorizações para exploração de energia hidráulica e de outras atividades do setor. E ainda se meteu nos critérios que eram usados para estabelecer as tarifas cobradas pelos esses serviços.

Óbvio que as empresas estrangeiras não gostaram. Mesmo que o tal Decreto não tenha emplacado totalmente, foi suficiente para esfriar os grupos internacionais que atuavam no setor.

E mais ou menos na mesma época ainda começou a 2ª Guerra Mundial. Os investimentos caíram enquanto que a demanda por energia elétrica só subia, principalmente nas cidades.

No período pós-guerra a situação foi de mal a pior: o sistema elétrico brasileiro entrou em crise e vários racionamentos tiveram que ser feitos.

Assim como estava fazendo em outros setores, o Governo resolveu então parar de apenas fiscalizar e começou a investir de fato na produção de energia elétrica.

Daí até o final da década de 70 o Governo expandiu do parque gerador e as distribuidoras, até porque a demanda continuava subindo.

Várias estatais foram criadas em todo o país, muitas através da absorção de empresas estrangeiras. Foi uma grande onda de estatização do setor elétrico Brasileiro.

As décadas de 60 e 70 foram boas e ruins, ao mesmo tempo…nesse período tivemos uma forte inflação e instabilidade política. Por outro lado, o Brasil passou por dois momentos de crescimento econômico muito acelerado.

Lá fora o mundo também teve seus problemas…com guerras e duas crises do petróleo. Em resumo…nesse curto período gastamos muito dinheiro em um cenário complicado.

O país se endividou, justamente quando os juros estavam subindo por causa de tanta incerteza política e econômica.

Quem pagou a conta foi a década de 80, que não a toa é conhecida como “A década perdida”.

Os investimentos foram praticamente parados: ninguém tinha dinheiro e todo mundo estava endividado. O Governo congelou as tarifas do setor elétrico para tentar conter a inflação.

Sem ter como pegar empréstimos e sem gerar caixa suficiente cobrando pelo serviço, a situação foi se complicando. O Governo tentou apertar o cinto, criando em 85 o PROCEL. A ideia era eliminar desperdícios e reduzir custos, mas não adiantou muito…

No final da década de 80 e nos anos 90 o Governo viu nas privatizações uma possibilidade de resolver os problemas. “Privatizar” é vender para o setor privado coisas que o próprio governo fazia. Na época os países desenvolvidos estavam apoiando esse movimento, interessados em expandir sua atuação nesse mercado globalizado.

Em 1992 o Plano Nacional de Desestatização priorizou a venda de distribuidoras de energia elétrica.

Conta de Luz: Década de 90

Ao longo da década de 90 o Governo foi saindo do papel de executor do setor e passou a ser muito mais um fiscalizador: foram criados órgãos como a ANEEL, por exemplo, e diminuída a atuação da Eletropaulo. Inclusive os clientes puderem começar a ter acesso a eletropáulo segunda via pelo próprio site da cia elétrica.

Mesmo assim os problemas não foram totalmente resolvidos. Ninguém tinha uma visão planejada e nem monitorava o sistema como um todo.

Acabamos tendo uma grande crise em 2001, com racionamento e tudo mais.

Em 2004 foram feitos ajustes no modelo para tentar melhorar a situação, mas até hoje não dá pra afirmar que estamos seguros quanto ao fornecimento de energia.

Em 2015, por exemplo, só porque não caiu água do céu onde a gente queria que caísse, quase tivemos outro problema sério de falta de energia elétrica.

Não dá pra depender de São Pedro todo ano para ter energia estável. Essa é a história da eletricidade no Brasil, de forma resumida, claro.

Começamos aplicando muito rápido algo que na época era uma inovação revolucionária. Expandimos rapidamente usando recursos privados internacionais. Depois controlamos,
estatizamos…e privatizamos de novo.

No meio do caminho tivemos crises feias…mas mesmo com tanto tumulto e com problemas que ainda estão por aí, hoje em dia quase 100% da população tem energia elétrica em casa.

Algo que a gente nem para para pensar, mas que provavelmente deixaria a sua bisavó de
queixo caído.

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